O futuro do home office em 2021

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Como adotar o trabalho remoto de forma produtiva e saudável tanto para a empresa quanto para o funcionário.


Depois de um ano de mudanças na rotina de trabalho, a adoção do home office passou a ser uma realidade para várias empresas. Com a chegada de 2021 e a pandemia ainda em alta, a tendência é que as empresas passem a ser cada vez mais abertas nas relações profissionais e esse novo regime de trabalho não seja apenas mais uma opção. 

Ao longo de 2020, muitos especialistas defenderam a volta ao trabalho presencial de forma mista, dando ao funcionário a possibilidade de alternar dias no escritório e dias em casa. No entanto, há os que sentem dificuldades em conciliar as demandas por terem crianças no mesmo ambiente ou por não possuírem os equipamentos necessários para o exercício pleno da função.

Andre Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e CEO da MIT Tecnology Review Brasil, acredita que esse movimento de retomada vai variar de acordo com as empresas e os setores. Segundo ele, muitas organizações optaram por não retornar ao modelo anterior à pandemia, aderindo ao home office de forma permanente ou aplicando um modelo híbrido.

“É fato que uma das maiores marcas que essa pandemia vai deixar no mercado de trabalho é a normalização e a disseminação do trabalho remoto, no entanto, é importante destacar que nem tudo são flores e que existem vantagens e desvantagens para todos os modelos”.

A produtividade em casa

Uma das razões para que o home office não tenha conquistado tantos adeptos até então era a questão da produtividade. Muitas empresas acreditavam que, estando em casa, o funcionário produziria menos. Ao mesmo tempo, funcionários alegaram que passaram até a trabalhar mais, já que não perdiam mais tempo com deslocamento ou fazendo uma hora de almoço completa.

Miceli detalha que nenhum dos fatores como área, cargo, salário, formação e idade são determinantes na produtividade dos funcionários em home office. O que realmente influencia são alguns traços específicos de personalidade, como indivíduos muito criteriosos que demonstram compreensão sobre suas responsabilidades e são meticulosos em suas execuções, e indivíduos com maior abertura e adaptação a situações novas. “Enquanto essas pessoas demonstram uma transição rápida e tranquila ao trabalho remoto, pessoas mais extrovertidas tendem a depender mais do contato social e apresentam maior dificuldade de adaptação ao isolamento”, ressalta.

Para as empresas, o especialista recomenda a realização de análises qualitativas e quantitativas sobre o desempenho dos funcionários, tendo em mente que é importante também valorizar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Definir limites, pausas estratégicas e horários para interação com a equipe são alguns cuidados que podem ajudar a maximizar a produtividade”, aponta Miceli.

De qualquer forma, o assunto ainda é alvo de debate. Há os que foram beneficiados com o home office e há aqueles que se sentiram prejudicados pelos mais diversos motivos. Miceli explica que os setores da indústria e do comércio, em sua maioria, já retornaram ao nível pré-crise, enquanto o de serviços, principal setor da economia, foi o mais afetado por depender diretamente de experiências presenciais.

De acordo com o estudo Home Office: Work Anywhere, desenvolvido pela MIT Technology Review Brasil, foi descoberto que 15% das empresas de serviços não veem perspectiva de retomada à normalidade, enquanto 47% projeta melhora a partir deste ano. No caso de serviços como restaurantes, lazer e turismo, os mais afetados, 66% veem melhora a partir deste ano e 17% não têm projeções de retorno à normalidade”.

Como melhorar o rendimento

Seja pelo fato de a pandemia ainda estar em alta ou pela flexibilidade proposta pelas empresas, o home office parece que veio para ficar. Sendo assim, a melhor opção é tentar fazer da rotina profissional em casa a melhor possível.

No caso de contornar os possíveis transtornos causados pela agitação de crianças e animais de estimação, Miceli afirma que, simultaneamente, há vantagens e desvantagens de trabalhar dentro de casa. Ao mesmo tempo em que há a oportunidade de intercalar momentos de trabalho e momentos com a família, existe também uma adaptação de toda a dinâmica domiciliar para conciliação de horários e construção de uma rotina funcional. “Vale ressaltar que, nesse contexto, a situação das mulheres tende a ser ainda mais complexa. Algumas empresas aumentaram a flexibilidade de horários para ajudar mães e pais e essa é uma daquelas medidas que ajudam os funcionários a manterem a produtividade com um pouco mais de conforto”, afirma.

Há também as melhoras que podem ser feitas nas questões ergonômicas e práticas, como mudança de mobiliário e a contratação de pacotes de internet com mais velocidade, por exemplo. Miceli cita uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com o Institute of Employment Studies (IES), que mostrou que 84% dos entrevistados não tiveram nenhuma assistência dos seus contratantes em relação às condições de saúde e segurança durante o período de home office. Ainda segundo a pesquisa, a maior parte das pessoas precisou se adaptar e improvisar seus novos ambientes de trabalho: 56% já relataram dores nas costas, 55% no pescoço e 50% nos ombros.

“Minha sugestão para quem não recebeu o suporte da empresa é buscar as condições ergonômicas adequadas, como mesas, cadeiras, acessórios e iluminação de acordo com as necessidades individuais. Em casos de dor e problemas posturais, indico procurar um médico que possa ajudar com as medidas necessárias para a manutenção do bem estar e qualidade de vida”, recomenda o especialista.

A parte que cabe às empresas

Algumas instituições e até mesmo os seus funcionários compartilharam em redes sociais, como o LinkedIn, o que foi feito para que o home office fosse produtivo e, por que não, prazeroso. Envio de cadeiras mais confortáveis às residências, ajuda de custo com o pagamento da internet e instalação de softwares para o trabalho remoto foram algumas das medidas tomadas. “As empresas podem ser grandes parceiras ou complicadoras nesse período. É importante que gerentes e líderes reconheçam os desafios que os trabalhadores enfrentam e promovam um ambiente saudável e uma cultura de suporte”, comenta Miceli.

O fator psicológico é muito importante nesse processo e um posicionamento tranquilizador por parte das organizações pode fazer toda diferença. O especialista acrescenta que, além disso, elas podem oferecer mais flexibilidade, estrutura física, organização de demandas e outras medidas que fortalecem a relação da empresa com funcionários e podem gerar benefícios para ambos os lados.

O home office parcial ou modelo híbrido não é regulamentado pelas leis trabalhistas vigentes, porém vários projetos de lei já estão em trâmite no Congresso Nacional para regulamentar o trabalho remoto. Apesar do caráter de urgência, Miceli acredita que possivelmente essas leis demorem por causa do longo processo legislativo.

“Sobre a possibilidade de o funcionário ter liberdade de alternar dias de trabalho presencial com o home office, vejo como uma rotina funcional, desde que bem planejada e acordada entre as partes. Cabe a funcionários e gestores uma análise sobre a produtividade nos diferentes contextos e adaptação à realidade individual”, ressalta o especialista.