Futuro do trabalho: entenda como será o mercado nos próximos anos

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Especialistas falam sobre as principais mudanças provocadas pela pandemia e as tendências para o futuro


Se há uma coisa que sabemos, é que os tempos de pandemia vieram para transformar tradições comuns, e que nada será como antes. Como impacto direto do contexto atual no mercado de trabalho, pudemos ver um aumento abrupto na taxa de desemprego globalmente. No Brasil, cresceu 26% o número de pessoas sem trabalho formal, de acordo com o IBGE.

Muito além do desemprego, é possível observar que, dentre as perspectivas já estabelecidas antes da conjuntura atual, algumas tendências permanecem as mesmas, ainda que de forma acelerada. Como por exemplo a da digitalização. Empresas que já estavam preparadas para uma onda de digitalização e familiarizadas com o termo “Transformação digital’, perceberam impactos menores ao adaptar processos e modelos de negócios para o universo online. Levando esse e outros critérios em consideração, a pergunta é: como será o mercado de trabalho no pós-pandemia?

Para Ana Guimarães, gerente de recrutamento da Robert Half, o trabalho remoto é um exemplo claro de como será o futuro do trabalho. “O que percebemos é que as empresas que não eram adeptas ao home office devem começar a utilizá-lo com maior frequência, até mesmo como fator de competitividade para atrair e reter profissionais, e as que já possuíam tendem a expandir”, diz.

Novas exigências

Os critérios básicos de exigência profissional também já foram transformados, tanto para as empresas quanto para as pessoas. “Hoje em dia, o alinhamento do propósito pessoal com o alinhamento com o propósito organizacional é sim um critério de seleção”, diz Luiz Barosa, sócio e diretor da área de capital humano na Deloitte. 

Segundo ele, não são apenas os consumidores que se mostram mais preocupados com causas sociais e com posicionamentos claros por parte das marcas sobre temas sensíveis do cotidiano. “Há uma demanda crescente da sociedade como um todo, seja pelas pessoas, outras empresas e o mercado em si, por um posicionamento em temas críticos. E um mal posicionamento do CEO da organização, por exemplo, pode impactar negativamente o valor de mercado de uma empresa”, diz. 

Barosa destaca que o DNA diverso será exigido não apenas no dia a dia da equipe de colaboradores, mas deve ser expressado com clareza também para o público externo constantemente.“Antigamente, para conhecer a cultura de uma empresa, era preciso trabalhar nela. Hoje, é possível ter clareza da postura da empresa antes mesmo de ir a uma entrevista de emprego nela”, diz.

Em relação ao que é pedido pelas empresas, conhecimento teórico e técnico deixarão de ser as habilidades mais requisitadas. No mercado de trabalho do futuro, segundo Ana, criatividade, adaptabilidade, inteligência emocional, flexibilidade e capacidade de resolução de problemas, por exemplo, serão algumas das principais qualidades procuradas em profissionais. “Habilidades como resiliência, adaptabilidade, capacidade de autogestão e comunicação, que já eram importantes, se tornam ainda mais relevantes”, diz a executiva.

Modelos de trabalho

Para Barosa, a autogestão também é uma das questões vitais no futuro do trabalho. Empresas que utilizam de estruturas em rede e metodologias ágeis para a resolução de problemas em um modelo mais interativo e rápido já estão habituadas a incentivar a autogestão entre seus colaboradores. “Esse movimento já está presente na organização e de fato veio para ficar”, diz.

No que diz respeito aos benefícios oferecidos aos colaboradores, uma pesquisa da Robert Half mostra traz alguns pontos interessantes. A maioria dos entrevistados (86%) concorda  com alterações daqui para frente e 80% afirma que passarão a considerar o home office como um modo de trabalho, e não mais como um benefício. Cerca de 11% dos entrevistados disseram ainda que não aceitariam uma proposta de trabalho de uma empresa que não oferecesse trabalho remoto de maneira parcial ou integral. 

Nos últimos anos, algumas empresas passaram a implementar uma nova tendência de redução da semana útil de trabalho para 4 dias. Empresas na Europa e Nova Zelândia já anunciaram a adoção da medida e compartilharam ganhos nos níveis de satisfação e redução da incidência de ‘burnouts’, estresse excessivo e crônico provocado por uma vida profissional desgastante e sobrecarregada. Segundo o executivo, os programas de bem-estar corporativos irão estar focados em novos modelos flexíveis, e gerando uma nova demanda para a área de Recursos Humanos. “O trabalho deve ser agradável, com conforto e sensação de pertencimento”, explica.

Digitalização

De acordo com uma pesquisa global da KPMG de 2019, executivos de tecnologia de empresas em mais de 100 países acreditam que 10% da sua força de trabalho será substituída por robôs nos próximos anos.

De acordo com uma pesquisa de 2020 da Deloitte sobre tendências em capital humano, 70% das empresas já estão avaliando usar Inteligência Artificial nos seus negócios. No entanto, mais da metade delas (58%) estão usando as tecnologias apenas para melhorar processos já existentes. “A apreensão sobre a substituição tem melhorado, e o que temos visto é um cenário bastante positivo”.  

Segundo Barosa, esse dado apenas confirma a ideia de que máquinas tomarão o posto de trabalho de pessoas seria um mito, e não uma verdade absoluta. Na prática, de acordo com ele, a tecnologia vem para alterar o que as pessoas fazem, excluindo tarefas replicáveis e repetitivas, e grande parte das empresas já estão investindo nessas nisso. As máquinas, diz o executivo, ainda estão longe de executar funções que exijam criatividade, ética e análise humana. “A tecnologia vai influenciar o mercado de trabalho, não para eliminar empregos, mas para transformá-los. Se tantas outras profissões serão eliminadas, milhares outras surgirão”, explica.

Para se preparar melhor para o futuro, Ana explica que empresas devem não apenas repensar em novos modelos de trabalho, mas reavaliar suas políticas de benefícios. “Sem dúvida, a área de Recursos Humanos, junto com as lideranças, precisará pensar estratégias para garantir a disseminação de cultura em um modelo de trabalho provavelmente híbrido (remoto e presencial), os treinamentos e desenvolvimento e a própria gestão de equipe remota.”