Moda consciente e sustentável: uma mudança de estilo e de comportamento

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Conheça duas startups que atuam com esse conceito e têm conquistado um número cada vez maior de consumidores


Em um ano em que uma pandemia veio para mudar radicalmente a vida de todos os brasileiros, alguns novos hábitos também foram incorporados à rotina, tanto no lado pessoal quanto no profissional. Foi neste cenário que o conceito de moda consciente e sustentável conquistou um número maior de adeptos por unir o conforto de uma compra feita virtualmente com a economia por adquirir um item de grife por um preço muito mais convidativo, por exemplo.

De uma forma geral, moda consciente e moda sustentável são coisas diferentes, embora complementares. De acordo com o Etiqueta Única, blog especializado no assunto, “enquanto a moda sustentável se preocupa com as formas de produção da indústria têxtil, a moda consciente é quando o consumidor manifesta em suas compras a preocupação com as questões ambientais e também sociais que envolvem a produção em massa das fast fashions”.

Duas das empresas do gênero que se surpreenderam com o andamento dos negócios durante a pandemia foram as startups Enjoei e Repassa. Esta última, criada em 2015, anunciou recentemente um aporte de R$ 7,5 milhões, liderado pela Redpoint Eventures, referência em investimentos Venture Capital no país.

Tadeu Almeida, fundador e CEO do Repassa, explica que o valor vem sendo aplicado em três principais frentes da empresa: estruturação do complexo onde funciona a nova sede da empresa; desenvolvimento de uma nova plataforma de e-commerce, que deve melhorar a experiência de compra e a navegabilidade do site, incrementando o volume de vendas em até 30%; lançamento do Parceiros do Bem, uma plataforma de soluções e experiências para incluir varejistas de moda no ciclo da economia circular, promovendo impacto social e ambiental.  

“Com o aporte, o Repassa projeta crescer 10 vezes nos próximos dois anos, ampliando o ciclo de vida de aproximadamente 70% das roupas que ficam paradas no guarda-roupa das pessoas”, afirma.

De acordo com Tiê Lima, CEO do Enjoei, que iniciou as atividades em 2012, seria injusto comparar o crescimento de lá para cá, pois a estrutura e os tempos eram outros. “Mas os desafios de continuar inovando e indo além é um espírito que permanece igual. Em 2020, estamos crescendo acima de 85% nos últimos trimestres”.

Os propósitos de cada marca

O Repassa foi criado com o objetivo de gerar impacto ambiental e social positivo ao aumentar o ciclo de vida das roupas.  O CEO da startup lembra que a moda é uma das indústrias mais poluentes do mundo e, ao vender uma peça usada, dilui-se 82% desse impacto. Desde sua fundação, por meio da ampliação do ciclo de vida das roupas, o Repassa já gerou economia de mais de 553 milhões de litros de água e 13 milhões de Kw/h de energia elétrica, além de evitar que 2,4 toneladas de CO² fossem emitidas na atmosfera. 

“Uma peça usada é tão útil quanto uma nova, mas até 90% mais barata, muito mais sustentável e exclusiva. Ao aumentarmos o ciclo de vida das roupas das pessoas, também entregamos uma solução de economia circular para marcas de varejo de moda. Dessa forma, conseguimos minimizar esse impacto ambiental”, diz Almeida.

Já o Enjoei surgiu de uma necessidade real: o armário de Ana Luiza McLaren, uma das fundadoras, estava ficando pequeno demais e não havia outra escolha que não fosse tirar algumas coisas para que outras novas entrassem.

Naquele momento, em 2009, mesmo as plataformas existentes para vender online não pareciam ideal. Então criamos um blog para que cada peça pudesse ser colocada à venda com uma história. E foi na história das coisas que construímos a história do Enjoei”, relembra Tiê.

Estratégias de marketing digital

Como 2020 foi um ano marcado pelo comércio online e pelo isolamento social, a forma de divulgação de marcas e produtos também precisou mudar. As startups precisaram contar com parcerias e uma dedicação muito além das redes sociais para que o estímulo à moda circular seguisse firme.

Entre as soluções encontradas pelo Repassa estão a abordagem de uma estética de moda informativa e do cotidiano em seu perfil no Instagram. Passou também a oferecer conteúdos de consumo consciente e com o melhor uso nas combinações das peças para serem usadas no dia a dia, além do Blog Repassa, que é voltado para publicações de moda e sustentabilidade. 

“Em parcerias com influenciadoras digitais, as chamadas “reparceiras”, que nos encontram muitas vezes por já consumirem no Repassa e pela união de mesmos ideais, temos o compromisso de transmitir a mensagem em nossas comunicações digitais e redes sociais”, detalha Almeida. 

Para o Enjoei, as mídias sociais e os comerciais para a TV, além de destacarem o DNA descontraído da marca, são importantes vitrines para ótimas oportunidades de compra e venda dentro dos canais disponíveis. “Assim como nossa plataforma de e-commerce, elas evidenciam a presença de grandes marcas, celebridades, influenciadores e usuários que movimentam o Enjoei”, reitera Tiê.

A influência da pandemia no comportamento do consumidor

Almeida fala que o período de pandemia foi uma surpresa. No caso do Repassa, houve um aumento das bases tanto de vendedores quanto de compradores. “Crescemos mais de 80% entre maio, junho e julho”. Tiê reforça que o hábito de comprar e vender foi acelerado. “O tempo que as pessoas passaram em casa contribuiu para que elas reconsiderassem com mais clareza o que era excesso. E é um hábito que veio para ficar”.

Na visão das startups de consumo consciente, o período de festas não precisa ser sinônimo de consumo exagerado. E uma mensagem muito importante em uma época de isolamento e de recessão econômica é a de despertar a consciência, mesmo na troca de presentes e na escolha de peças para o fim de ano.  Como uma alternativa, a escolha por peças de segunda mão, por exemplo, pode trazer um significado ainda maior. 

“Peças adquiridas em brechós ganham uma nova oportunidade de ciclo de vida e diminuem significativamente os recursos que seriam retirados do planeta. O consumidor, ao comprar roupas ou acessórios usados, contribui com a prática da sustentabilidade na indústria da moda, reduzindo poluentes que seriam usados na produção de novos itens de vestuário”, ressalta Almeida.

A CEO do Enjoei afirma que a mudança também veio em termos de conceito. Antes, era comum algumas pessoas terem um certo pudor em colocar itens pessoais à venda, mas o sucesso da startup, além de mudar esse pensamento, contribuiu também para educar os vendedores a selecionar peças e itens bacanas e em ótimo estado. A plataforma é uma oportunidade de negócio, não um espaço para se “livrar” das coisas. 

“Não podemos afirmar que a pandemia gerou o crescimento esperado deste ano, mas podemos supor que as pessoas, estando mais tempo em casa, conseguiram olhar com mais atenção para suas coisas e, eventualmente, ampliar os itens de suas lojinhas. Assim como os compradores passaram a dedicar mais tempo para o e-commerce”, diz Tiê.

Ambas as startups contaram quais são os itens mais buscados em suas plataformas. No Repassa, blusas, calças, saias e vestidos da categoria feminino. No Enjoei, moda em geral, marcas internacionais e nacionais, bolsas, acessórios e calçados.

O consumo nas festas de fim de ano

Em uma época de festas, quando as pessoas gostam de estar com uma roupa nova, Almeida e Tiê analisam a adesão das pessoas a esse costume em um cenário de pandemia: este período não precisa ser sinônimo de consumo exagerado e é perfeitamente possível unir esse costume a um modo de vida cada vez mais consciente.

“O consumidor, ao comprar roupas ou acessórios usados, contribui com a prática da sustentabilidade na indústria da moda, reduzindo poluentes que seriam usados na produção de novos itens de vestuário”, diz o CEO do Repassa.

Tiê prevê que a maneira de celebrar deve mudar, com muitas pessoas permanecendo em suas casas, reunindo a família toda à distância e evitando aglomerações. No entanto, uma roupa nova pode trazer um conforto à espera de tempos melhores.

“Ainda ficando em casa devem se arrumar e se produzir, para minimizar os efeitos da pandemia e fortalecer o otimismo e a esperança por dias melhores. E isso está diretamente associado ao espírito da roupa nova nestas datas especiais”.